Quarta-feira, Novembro 30, 2005

De cima para baixo

DO PÚBLICO de ontem, a crónica de José Vítor Malheiros:

"O Plano Tecnológico foi apresentado durante a campanha eleitoral por José Sócrates como um dos eixos estratégicos da acção do futuro Governo do Partido Socialista. Era em torno deste programa que o PS se propunha enfrentar o futuro, libertar a chama criadora dos portugueses, romper o atraso crónico e todas essas coisas que é costume dizer nesses momentos.
O discurso em torno do Plano Tecnológico era medianamente acertado, ainda que construído em torno de lugares-comuns: tratava-se de colocar a tónica no conhecimento, na inovação, na investigação, na iniciativa, na mobilidade, na qualidade, etc.
A concepção e a apresentação do Plano Tecnológico veio colocar no sítio certo as expectativas que pudéssemos ter em relação a mais esta iniciativa: naquela prateleira pequenina onde está a jarrinha com as flores secas, ao lado da paixão da educação de António Guterres.
Passemos por alto o episódio rocambolesco da demissão do responsável do plano na véspera da sua apresentação. Passemos por alto o facto de o plano ser lançado sem ter uma figura de indiscutível capacidade de intermediação e de liderança à sua frente. Passemos por alto até o facto (sintoma precoce de uma daquelas doenças prolongadas que aparecem nas necrologias) de os responsáveis dos dois ministérios que mais unidos deveriam estar na implementação do plano terem sobre ele perspectivas divergentes.
Passemos por cima de tudo isto para nos centrarmos num único aspecto desta coisa que nos apresentam como uma estratégia nacional com base no conhecimento e na inovação: o facto de este ser, mais uma vez, um plano feito de cima para baixo, nascido na cabeça de quatro iluminados, e sem uma real participação na sua concepção das forças que se pretende mobilizar.
A dinâmica que um plano tecnológico deveria representar só existe, se ele for o resultado de um verdadeiro debate mobilizador, se ele integrar as aspirações dos actores sociais que o têm de levar à prática, se ele tiver sido palco dos confrontos que surgem necessariamente em qualquer discussão estratégica e se tiver podido transformar-se na resultante de toda essa agitação, se ele tiver podido gerar ideias novas e excitantes. Mas claro que isso não se faz sem um forte empenho nessa participação, sem uma verdadeira competência de intermediação, sem uma reconhecida capacidade de negociação e arbitragem e sem uma liderança sensata e inovadora.
Não se trata apenas de envolver nesse debate os engenheiros e os empresários, trata-se da totalidade da sociedade. Sem a participação real (e não apenas formal) de professores, de investigadores, da administração pública, de criadores, de sindicatos e de associações, dos cidadãos em geral, pode fazer-se um papel, mas não se faz um plano que mude o país.
Pode dizer-se que isto é pedir muito, mas Portugal, se não se mudar muito, não muda nada - e isso será dramático.
A incapacidade demonstrada para fazer isto é tanto mais chocante quanto se esperava aqui alguma inovação organizacional, alguma capacidade de correr riscos, alguma utilização criativa da tecnologia - e nada disso existiu. Hoje, graças à Internet, é possível levar a cabo discussões generalizadas on-line, criar fóruns ou blogues ou wikis para grupos especializados ou transversais, realizar trabalho cooperativo de forma eficaz, eficiente e, acima de tudo, participada. Como é que os autores do Plano Tecnológico querem que a sociedade faça algo que eles não conseguiram fazer?
Basta ver o site do Plano Tecnológico para perceber a cultura que está por trás do documento: a única forma de interacção proposta aos cidadãos é um botão para enviar "sugestões". Seria cómico, se não fosse triste.
Tal como está, o Plano Tecnológico é uma colecção de medidas governamentais e de intenções piedosas. E, piedosamente, o Governo espera que tal coisa acorde as forças inovadoras adormecidas e faça florescer mil sinergias. Assim, será preciso um milagre. Teria bastado vontade e alguma imaginação para fazer melhor."

8 Comments:

Anonymous M.Pedrosa said...

Acho muito interessante toda a discussão sobre o plano tecnológico. Para quem vai ser o plabno tecnológico, isto é, a quem se dirige o PT, isto é, quem vai saber dele?

É que o ministro Morais Sarmento dos governos do PSD (Barroso e Lopes) destruiu tod a indústria do audiovisual portuguesa, para entregar a sua exploração a Pinto Baqlsemão e a quem ele entender "que merece". Com uma televisão indigente, a cheirar a Terceiro Mundo, pior do que isso, a América Latina, com negócios cruzados entre jornalistas e produtoras independentes, com uma tutela à espera que o contrato do CA da RTP termine, como é possível veicular as vantagens do PT? Quem vai perceber o quê. Será, que, mais uma vez, tem negócio escondido?

E já agora, "et pour cause": quando é que o PM deixa de ralha connosco, conmo se todos nós sejamos adolescentes prevaricadores?

4:35 PM  
Anonymous Susana Serrano said...

Acho que cada um de nós lê o PT com os olhos da sua área profissional: tenho lido muitas preocupações e todas elas me parecem legítimas. Gostava de acrescentar outra: a geração que está agora na escola, entre o 3º ciclo e o secundário seria a geração que iria beneficiar e alargar o dito plano; tenho muita pene em dizer isto, mas quase não se ensina a pensar nas nossas escolas, pelo contrário; quem pensa ou é criativo fica isolado, seja prof. ou aluno. É neste ponto que é preciso investir senão o PT é para cair no abismo.
Susana Serrano

10:44 PM  
Blogger INFOMERCIAIS said...

"I Have a Dream".


Perguntamos.. que importância poderá ter um SONHO, ou até mesmo uma simples declaração de intenção? Dependerá com certeza da SORTE, oportunidade , mas também.. muito do CORAÇÂO, das capacidades de seus portadores em acreditarem..

Como disse Martin Luther King com "I Have a Dream"

pois bem este é o meu SONHO ;
"a pertenção de ser o sonho de alguns desempregados"

11:22 AM  
Blogger H. Sousa said...

Quando se fala em plano tecnológico o que entendem as pessoas? Pelo menos eu entendo assim: plano tecnológico, novas tecnologias... computadores! Ah, é isso. Vão inundar o país com computadores. E depois? No próximo ano já estão desactualizados...
Sou professor de electrotecnia e electrónica numa escola secundária (antiga escola técnica) com muitos computadores e salas de informática (TIC). Mas o que se pode fazer de alunos que chegam ao 10.º ano sem saber que o pi (3,14159...) é a relação entre o perímetro e o diâmetro de um círculo?

5:21 AM  
Anonymous fernando nogueira gonçalves said...

PORTUGAL E AS NOVE CAUSAS DE ESTAGNAÇÃO





1º Considerando que o atraso de Portugal se deve essencialmente à pouca iniciativa empresarial, associada e desenvolvida por uma cultura de pavor ao risco e à inovação começada muitas vezes nos bancos da escola.

2º Considerando que deve ser implementada nos estabelecimentos de ensino e logo nos primeiros anos, uma cultura que promova a iniciativa, o risco e a investigação com a componente prática e experimentação.

3º Considerando que as acções actualmente implementadas são castradoras, elitistas e à margem das realidades que se vivem no país.

4º Considerando que algumas das acções (acesso às novas tecnologias, informática internet entre outras) actualmente em execução ou em vias disso, deveriam ser uma ferramenta de trabalho e não um fim à vista, como se tem dado a entender e a realidade demonstrará.

5º Considerando o sistemático erro de querer fazer do criativo, investigador e inventor um potencial investidor e empreendedor, quando se sabe ou deveria saber que, estes atributos podendo coabitar na mesma pessoa, são realidades distintas e com tratamentos que deveriam ser diferênciados.

6º Considerando que é anti-pedagógico querer fomentar a criatividade e a inovação, plagiando métodos e experiências de outrem, nomeadamente experiências realizadas em países estrangeiros.

7º Considerando que a análise atrás descrita é fundamentada na vivência e experiência do dia a dia dos cidadãos e não em audições de quem não vive os problemas reais, sendo sim e na maior parte das vezes uma peça dos mesmos.

8º Considerando que a realidade portuguesa, é diferente em todos os aspectos das realidades dos outros países, quer pelo espaço fisico, quer pelas diferenças culturais, quer outras.

9º Considerando que todos os problemas das empresas, criativos, investigadores e inventores são o somatório das alíneas atrás descritas e que, não podem ser analisadas em separado pois complementam-se entre si.









PORTUGAL E AS NOVE MEDIDAS DE DESENVOLVIMENTO


1º Criação no i.n.p.i instituto nacional da propriedade industrial, de um banco de patentes, registadas pelos criativos, investigadores, inventores , empresas, institutos e universidades portuguesas , o qual será um viveiro de produtos para consulta do mundo empresarial e empreendedor .

2º Isenção de todas as taxas na apresentação de patentes, modelos de utilidade e desenhos industriais e sua manutenção, enquanto estes títulos estiverem depositados no banco de patentes atrás mencionado.

3º Criação imediata de um salão de inventos, novas tecnologias e novos produtos, com (inscrição gratuita) com prémios de reconhecimento e monetários, com caracter anual e dividido em pelo menos 4 categorias :

Empresas
Institutos e universidades
Escolas
Inventores independentes
a) Porque não iguais, deverão ser criadas divisões sectoriais nos produtos e trabalhos a apresentar.

4º Suporte e apoio estatal, a todas as criações de interesse económico e estratégico para o país, na obtenção de patentes europeias e internacionais. Verba que será restituida ao estado e com correção monetária, pelo titular no acto de tranferência ou venda da criação.

5º Isenção ou redução nos primeiros anos de i.r.c., i.v.a. entre outros, às empresas que produzam um ou mais produtos, de patentes ou modelos de utilidade e desing, registadas pelos criadores portugueses ou afectas ao banco de patentes.

6º Criação de um distintivo (reconhecimento) para as empresas que promovam a produção de um produto novo no mercado.

7ª Suporte e apoio financeiro estatal, aos trabalhos premiados no ponto 3º para mostras e salões internacionas.

8º Criação de um recibo para os donativos dados por particulares ou empresas à investigação, invenção e à sua divulgação, o qual deve beneficiar o dador não penalizando o receptor, tanto a nivel de i.r.s como i.r.c

9º Criação de um reconhecimento especial, com o fim de promover parcerias entre todos os agentes atrás descritos, no desenvolvimento e apresentação de trabalhos, invenções e produtos inovadores.

Fundão 31 de março de 2006
Autor
Fernando Nogueira Gonçalves

11:54 AM  
Anonymous Anónimo said...

"Engenheirices", como nós dizemos no Alentejo. De facto, o plano tecnológico do Engº Sócrates tal como a paixão do Engº Guterres, como a nova refinaria para Sines, projecto apresentado com pompa e circunstância, que afinal, não passou de show televisivo, com a subserviência e vassalagem da imprensa portuguesa. Até quando os jornalistas se prestarão a este papel?
franciscorato.blogspot.com

10:56 PM  
Blogger Shara said...

Hi Publico, You can sign up Party Pokerwith CODE: RB2006 to get bounus :20% upto $100. regard

6:04 PM  
Blogger KK said...

J. Vitor estou entre Portugal e o mundo, da América Latina a Àfrica, dos USA a Europa.
A questão tecnológica é um imperativo para todos os países.
Pra mim, o atraso português se deve especialmente, a pouca qualidade dos governantes e a expectativa que os portugueses têm nestes ....condutores e a qualidade do ensino
Feliz ano novo a todos

11:29 PM  

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